Plano de saúde · gestante

Reajuste e cancelamento de plano de saúde durante a gravidez: o que a lei garante à gestante.

A operadora aplicou reajuste abusivo, ameaçou cancelar ou rescindiu o contrato no meio da gestação. A Lei 9.656/98, o Estatuto da Criança e do Adolescente, o CDC e o Tema 1.082 do STJ asseguram cobertura integral durante toda a gravidez e o pós-parto, com possibilidade de tutela de urgência em poucos dias.

Gestante segurando barriga e analisando boleto de plano de saúde

Por que a gestante recebe proteção reforçada

O direito da saúde suplementar trata a gestante como beneficiária em situação de vulnerabilidade qualificada. A combinação de fatores é objetiva: o pré-natal já está em curso, o vínculo com o obstetra foi construído ao longo de meses, o parto tem data prevista e a interrupção da cobertura coloca em risco a vida da mãe e do nascituro. A literatura jurídica e a jurisprudência do STJ e do TJSP convergem para um mesmo princípio — o contrato de plano de saúde, durante a gestação, sofre o influxo do dever fundamental de proteção à vida e à dignidade humana, refletido no art. 6º e no art. 227 da Constituição.

Essa proteção não é uma criação jurisprudencial isolada. Ela se ancora na Lei 9.656/98, no Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8.069/90, art. 8º, que assegura o pré-natal), na Lei 11.108/2005 (direito a acompanhante no parto), no Código de Defesa do Consumidor (vedação a práticas abusivas) e em normas da ANS sobre cobertura obstétrica. O resultado prático é que medidas que seriam admissíveis em outros contextos — como a rescisão imotivada de coletivo após 12 meses de vigência — encontram limite ético-jurídico quando a beneficiária está grávida.

O dado de campo confirma o tamanho do problema. A pesquisa jurisprudencial do escritório identificou múltiplas decisões recentes em que operadoras aplicaram a regra da rescisão unilateral de coletivos sem considerar a gestação em curso. Em todas as decisões com gestação plenamente comprovada e tratamento em andamento, o Judiciário restabeleceu o contrato e, conforme o caso, condenou as empresas envolvidas a danos materiais e morais. O entendimento é hoje consolidado tanto na 3ª e 4ª Turmas do STJ quanto nas Câmaras de Direito Privado do TJSP.

O cancelamento durante a gravidez é abusivo

A regra geral admite a rescisão unilateral pela operadora de plano coletivo após 12 meses de vigência, com aviso prévio de 60 dias (art. 13, parágrafo único, II, da Lei 9.656/98). Em planos individuais, a rescisão somente se admite em hipóteses estreitas: fraude do beneficiário ou inadimplência superior a 60 dias com notificação prévia (art. 13, II e III). Esse desenho legal, contudo, sofre temperamento quando a beneficiária está grávida.

O fundamento jurídico

O ponto de partida é o Tema 1.082/STJ, fixado no REsp 1.842.751/RS pela 2ª Seção sob a relatoria do Min. Luis Felipe Salomão. A tese determina que a operadora, mesmo após o exercício regular do direito à rescisão unilateral de plano coletivo, deve assegurar a continuidade dos cuidados assistenciais prescritos a usuário internado ou em pleno tratamento médico garantidor de sua sobrevivência ou de sua incolumidade física, até a alta efetiva, desde que o titular pague integralmente a contraprestação devida. A gestação de risco e o parto programado se enquadram nessa hipótese por construção jurisprudencial pacífica do TJSP.

A esse fundamento somam-se: o art. 35-C, I, da Lei 9.656/98 (cobertura obrigatória de urgência e emergência, incluindo intercorrências obstétricas); o art. 12, III, da mesma lei (cobertura obrigatória de parto normal e cesárea); o art. 39, IV, do CDC (vedação a prevalecer-se da fraqueza ou ignorância do consumidor); a Súmula 608 do STJ (planos de saúde sujeitos ao CDC, ressalvada a autogestão); e a Súmula 469/STJ (CDC aplicável aos contratos de plano de saúde).

Como o TJSP tem tratado o tema

Em São Paulo, três decisões recentes pavimentam a jurisprudência. No AI 2064723-57.2024.8.26.0000 (4ª Câmara de Direito Privado, Des. Enio Zuliani, j. 26/04/2024), a Câmara reconheceu que contrato coletivo de duas vidas familiares, durante gestação em curso, não pode ser rescindido pela operadora — a Súmula 608/STJ e o princípio da boa-fé objetiva (CC, art. 422) impedem a perda da cobertura justamente no momento de maior vulnerabilidade. No AI 2015796-36.2019.8.26.0000 (4ª Câmara, Des. Alcides Leopoldo, j. 18/03/2019), a Corte determinou a prorrogação do contrato até o parto e o período pós-parto, mesmo após falência da estipulante, sob fundamento da continuidade do tratamento. Em Apelação 1085072-89.2024.8.26.0100 (4ª Câmara, Des. Enio Zuliani, j. 22/04/2025), aplicou-se o mesmo raciocínio a idoso de 90 anos com comorbidades — confirmando que a vedação à rescisão imotivada vale para todo beneficiário em situação de vulnerabilidade extrema.

Os dois argumentos que a operadora costuma apresentar

O primeiro é a alegação de exercício regular de direito previsto em lei. A operadora afirma que cumpriu o art. 13, parágrafo único, II, da Lei 9.656/98 — 12 meses de vigência mais 60 dias de aviso. Essa tese cai diante do Tema 1.082/STJ: a regularidade formal não afasta a obrigação de manter a cobertura durante tratamento em curso. Gestação de alto risco, com parto programado, é tratamento em curso por definição jurisprudencial.

O segundo argumento é o “desinteresse comercial” — a operadora alega que decidiu encerrar a operação daquele coletivo por motivos de mercado. Esse fundamento, isoladamente considerado, não autoriza a desassistência da gestante. O TJSP tem sido enfático: a liberdade contratual da operadora não pode ser exercida em prejuízo da incolumidade física da beneficiária e do nascituro. O cancelamento por desinteresse, durante a gestação, configura abuso de direito (CC, art. 187) e enseja não apenas o restabelecimento do contrato, mas também a condenação por danos materiais e morais.

O que fazer agora

Cinco passos. Os três primeiros a própria gestante consegue executar. Os dois últimos exigem orientação de advogado especializado em saúde suplementar.

  1. Solicite a notificação ou o demonstrativo por escrito. Se a operadora comunicou cancelamento ou aplicou reajuste, exija a fundamentação formal — número do protocolo, motivo, base contratual e, no caso de reajuste, percentual aplicado e cláusula de origem. Frase recomendada: “solicito a notificação formal e a fundamentação técnica do cancelamento (ou do reajuste), com referência expressa à cláusula contratual e ao prazo legal de aviso, sob pena de configurar recusa injustificada de informação ao consumidor”. Sem o documento, o juiz não conhece o pedido com a profundidade necessária.
  2. Reúna a documentação obstétrica completa. A instrução probatória decisiva inclui: cartão de pré-natal; ultrassonografias com data; laudos de eventuais intercorrências (diabetes gestacional, hipertensão, trombofilia, gestação de alto risco); receituário do obstetra; agendamento de cesárea ou previsão de parto natural. Quanto mais completa a prova da gestação em curso e do risco de desassistência, mais célere costuma ser o deferimento da tutela de urgência.
  3. Mantenha o pagamento integral das mensalidades. Mesmo se o reajuste estiver visivelmente abusivo, pague o boleto integral até a liminar sair. Qualquer atraso superior a 60 dias permite que a operadora alegue inadimplência (art. 13, II, Lei 9.656/98) e tente rescindir o contrato por outro fundamento. O que se pleiteia em juízo é a suspensão do percentual abusivo e, posteriormente, a restituição em dobro do excesso pago — não o cancelamento da cobrança.
  4. Procure advogado especializado em direito da saúde suplementar. A petição inicial é instruída com pedido de tutela de urgência (CPC, art. 300) para manutenção do contrato durante toda a gestação e o período pós-parto, suspensão de qualquer cobrança abusiva e fixação de astreintes (CPC, art. 537) em caso de descumprimento. O fundamento jurídico mobiliza Tema 1.082/STJ, art. 35-C da Lei 9.656/98, Súmula 608/STJ e jurisprudência do TJSP. Em São Paulo, a liminar costuma sair em poucos dias quando a documentação obstétrica está completa.
  5. Não cancele o plano e não migre por conta própria. A migração para outra operadora durante a gestação implica, em regra, novos prazos de carência (salvo portabilidade especial), risco de Cobertura Parcial Temporária para complicações gestacionais e, principalmente, troca do obstetra que já acompanha o pré-natal. A regra prática que o escritório transmite à gestante é direta: a via judicial preserva o vínculo médico existente; a portabilidade ou a contratação nova quebra esse vínculo em momento crítico.

Caso paradigmático: oito dias antes do parto

O caso mais ilustrativo da tutela jurisdicional à gestante foi julgado pela 4ª Câmara de Direito Privado do TJSP, sob relatoria da Des. Fátima Cristina Ruppert Mazzo, em 26 de janeiro de 2026, no Apelo Cível 1021349-05.2024.8.26.0001. Os recursos das rés foram negados por unanimidade.

A beneficiária estava em gestação de alto risco — três abortamentos anteriores documentados em prontuário e diagnóstico de trombofilia. O parto cesariana já tinha data marcada. Faltavam oito dias quando a Qualicorp, na qualidade de administradora, e a Unimed Nacional, na de operadora, comunicaram o cancelamento do contrato coletivo por adesão. O motivo formal foi “desinteresse comercial”. Não houve notificação válida prévia, não havia inadimplência e não havia tampouco fundamento técnico que justificasse a rescisão exatamente naquele momento. A beneficiária precisou custear o parto particular, ao custo de R$ 7.001,45, em estabelecimento que sequer integrava sua rede credenciada original.

A tese central da defesa das rés foi a regularidade formal — coletivo após 12 meses de vigência, comunicação dentro do prazo legal de aviso, ausência de obrigação de manter a cobertura por desejo unilateral da operadora. O TJSP afastou cada um dos argumentos. A regularidade formal, ainda que aceita em tese pelo art. 13, parágrafo único, II, da Lei 9.656/98, não autoriza a desassistência durante tratamento médico em curso (Tema 1.082/STJ aplicado por analogia à gestação). O “desinteresse comercial” caracteriza abuso de direito (CC, art. 187) quando exercido em prejuízo da incolumidade física da beneficiária e do nascituro. A responsabilidade é solidária de toda a cadeia de consumo (Súmula 608/STJ).

O resultado: condenação solidária da Qualicorp e da Unimed Nacional ao pagamento de R$ 7.001,45 a título de danos materiais (reembolso integral do parto particular, com correção monetária e juros legais a partir do desembolso) e R$ 6.000,00 a título de danos morais, considerando-se a vulnerabilidade extrema da gestante de alto risco em momento próximo ao parto. O TJSP destacou expressamente que o cancelamento unilateral ilícito, em situações ordinárias, não gera dano moral automático — é preciso demonstrar abalo concreto. Mas a vulnerabilidade extrema (gestação de alto risco, oito dias antes do parto agendado) preenche o requisito por circunstâncias do caso.

O caso é especialmente importante porque consolida três pontos da defesa da gestante. Primeiro, confirma a aplicação do Tema 1.082/STJ por analogia à gestação. Segundo, fixa um valor de referência para danos morais em cancelamento de gestante (R$ 6.000,00), que serve como piso para situações similares — situações mais graves, com complicações médicas ou perda da gestação, podem alcançar valores superiores. Terceiro, reafirma a responsabilidade solidária da administradora (Qualicorp) e da operadora (Unimed) — a beneficiária pode demandar uma ou ambas, sem necessidade de discutir o repasse interno.

Reajuste durante a gestação — quando é abusivo

Reajuste e cancelamento são problemas distintos, mas costumam vir juntos. Quando a operadora não consegue rescindir formalmente o contrato — porque há gestação ou tratamento em curso — surge a tentativa de aplicar reajustes que, na prática, inviabilizam a permanência no plano. A jurisprudência reage a essa estratégia pelo mesmo padrão de proteção.

Reajuste anual em plano individual

Para planos individuais e familiares regulamentados pela Lei 9.656/98, o teto anual é fixado pela ANS por meio da RN 441/2018 (80% IVDA + 20% IPCA-Expurgado). Em maio/2024, foi de 6,91%; em maio/2025, foi de 6,06%. O percentual de 2026 é divulgado em maio. Reajuste aplicado acima desse teto, sem autorização expressa da ANS, é abusivo e enseja restituição em dobro pelo art. 42, parágrafo único, do CDC. Detalhamento em índice ANS de reajuste.

Reajuste anual em plano coletivo

Em coletivos, o reajuste anual depende de fundamentação técnica — em regra, sinistralidade comprovada por extrato pormenorizado. Quando a operadora aplica percentual elevado sem demonstrar a base atuarial, a jurisprudência consolidada do STJ (REsp 2.065.976/SP) determina a redução ao índice ANS individual. Quando o coletivo tem poucas vidas familiares — caso da gestante em coletivo familiar com dois ou três beneficiários — aplica-se a equiparação ao individual: o teto da ANS limita o reajuste. Veja contestação de falso coletivo.

Reajuste por mudança de faixa etária durante a gestação

Quando o aniversário do contrato coincide com a gestação, é possível que a beneficiária encontre dois reajustes simultâneos — o anual e o de faixa etária. Se a faixa etária mudada for a dos 60 anos, o STF (Tema 381, RE 630.852, j. 08/10/2025) e o STJ (Tema 952) sustentam a contestação para quem completou 60 anos depois de 01/01/2004, com restituição em dobro do excesso. Detalhamento em reajuste plano de saúde 60 anos. Para outras faixas, a análise é casuística — exige-se base atuarial e proporção em relação às faixas anteriores.

O dano moral qualificado pela gestação

O STJ vem sendo restritivo em matéria de dano moral por reajuste isolado, exigindo prova concreta de abalo (REsp 1.921.320). Em situações com gestante envolvida, a equação muda. A vulnerabilidade qualificada permite ao Judiciário reconhecer que o reajuste abusivo, conjugado à ameaça de perda da cobertura no momento do parto, configura ofensa à dignidade da pessoa humana — ainda que a operadora não chegue a cancelar formalmente o contrato. A faixa típica do TJSP nessas situações é de R$ 5.000,00 a R$ 15.000,00, com teto eventualmente superior em casos de complicações obstétricas comprovadas.

Cobertura obstétrica obrigatória

O leitor que precisa do detalhamento jurídico — para apresentar à operadora, para o advogado escrever a peça, ou para entender por que a tese tem chance real — encontra abaixo o conjunto de obrigações legais que a operadora deve cumprir durante a gestação e o pós-parto.

Pré-natal completo

A cobertura abrange consultas médicas com obstetra, exames laboratoriais (hemograma, tipagem sanguínea, sorologias, glicemia), ultrassonografias obstétricas (incluindo morfológicas), cardiotocografia, dopplerfluxometria e procedimentos correlatos previstos no rol da ANS (RN 465/2021 e suas atualizações). A operadora não pode limitar o número de consultas pré-natal nem condicioná-las a autorização adicional além da prevista no rol vigente.

Parto — normal e cesárea

O art. 12, III, da Lei 9.656/98 garante cobertura obrigatória para o parto. O tipo (normal ou cesárea) é decisão médica, não da operadora. A internação para parto não tem limitação de diárias (art. 12, II, “b”). A anestesia — peridural, raquidiana ou geral — está integralmente coberta. A negativa de cobertura sob alegação de “carência não cumprida” é abusiva quando se trata de urgência ou emergência obstétrica, hipótese em que a carência máxima é de 24 horas (art. 35-C, I).

Direito a acompanhante

A Lei 11.108/2005 assegura o direito da parturiente a um acompanhante durante o trabalho de parto, parto e pós-parto imediato. A operadora deve cobrir as despesas do acompanhante. Recusa configura prática abusiva (CDC, art. 39).

UTI neonatal

Em caso de intercorrência neonatal, a internação em UTI neonatal está integralmente coberta, sem limitação de diárias (art. 12, II, “b”, Lei 9.656/98). O bebê, automaticamente inscrito como dependente nos primeiros 30 dias (art. 12, III, “a”), recebe cobertura integral desde o primeiro dia.

Inscrição automática do recém-nascido

O art. 12, III, “a”, da Lei 9.656/98 garante a inscrição automática do recém-nascido como dependente nos primeiros 30 dias de vida, sem carência e sem exame prévio. A operadora deve ser notificada dentro dos 30 dias — a partir do 31º dia, a mensalidade do dependente passa a ser cobrada normalmente. A recusa de inscrição ou a exigência de carência adicional para o bebê é prática abusiva passível de tutela de urgência.

Carência máxima para parto

O art. 12, V, da Lei 9.656/98 estabelece a carência máxima de 300 dias para parto a termo. Em situações de urgência ou emergência obstétrica — hemorragia, eclâmpsia, trabalho de parto prematuro, descolamento de placenta — a carência máxima é de 24 horas (art. 35-C, I). A distinção é importante: a operadora não pode invocar carência para negar atendimento de intercorrência obstétrica que configure urgência médica, sob pena de responsabilização civil e administrativa pela ANS.

Portabilidade durante a gestação

A RN 438/2018 da ANS regula a portabilidade de carências sem necessidade de cumprir novas. A gestante pode, em tese, exercer a portabilidade — desde que o plano de origem esteja em dia, exista compatibilidade de faixa de preço com o plano de destino e o exercício se dê na janela de aniversário. A reserva prática é a já mencionada: a portabilidade implica troca de rede credenciada, e durante a gestação isso normalmente significa perder o obstetra. A via judicial para manutenção do plano original com tutela de urgência costuma ser mais segura.

Jurisprudência

Decisões que sustentam a defesa da gestante

Seis referências centrais. Em ordem de peso para o caso de cancelamento ou reajuste durante a gravidez em São Paulo.

01

STJ Tema 1.082 (REsp 1.842.751/RS) — cobertura até alta

2ª Seção, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, repetitivo de 2022. Operadora deve manter a cobertura de quem está em tratamento médico garantidor de incolumidade física até a alta efetiva, mesmo após rescisão regular do coletivo. Aplica-se por analogia à gestação.

02

TJSP 1021349-05.2024 — oito dias antes do parto

4ª Câmara de Direito Privado, Des. Fátima Cristina Ruppert Mazzo, j. 26/01/2026, unanimidade. Cancelamento de gestante de alto risco oito dias antes do parto cesariana = abuso de direito. Condenação solidária Qualicorp + Unimed: R$ 7.001,45 materiais + R$ 6.000,00 morais.

03

TJSP AI 2064723-57.2024 — coletivo familiar e gestação

4ª Câmara, Des. Enio Zuliani, j. 26/04/2024. Contrato coletivo de duas vidas familiares durante gestação: rescisão imotivada vedada. Aplicação da Súmula 608/STJ e do princípio da boa-fé objetiva (CC, art. 422).

04

TJSP AI 2015796-36.2019 — falência da estipulante

4ª Câmara, Des. Alcides Leopoldo, j. 18/03/2019. Mesmo após falência da estipulante, a operadora deve prorrogar o contrato da gestante até o parto e período pós-parto. Continuidade do tratamento prevalece sobre o evento societário.

05

Súmula 608 STJ — CDC + cadeia de consumo

“Aplica-se o Código de Defesa do Consumidor aos contratos de plano de saúde, salvo os administrados por entidades de autogestão.” Combinada com o art. 7º, parágrafo único, do CDC, fundamenta a responsabilidade solidária da administradora e da operadora.

06

Lei 9.656/98 — cobertura obstétrica obrigatória

Art. 12, III (cobertura de parto), art. 12, V (carência máxima 300 dias), art. 35-C, I (urgência/emergência obstétrica em 24h), art. 12, III, “a” (inscrição automática do recém-nascido por 30 dias). Lei 11.108/2005 (acompanhante).

Dúvidas frequentes

Perguntas e respostas

A operadora pode cancelar meu plano durante a gravidez?

Em planos individuais, a operadora não pode cancelar exceto em hipóteses estreitas — fraude do beneficiário ou inadimplência superior a 60 dias com notificação prévia (art. 13, II e III, Lei 9.656/98). Em coletivos, a rescisão após 12 meses de vigência com aviso de 60 dias é admitida pela lei, mas o STJ (Tema 1.082) e o TJSP têm reconhecido que durante a gestação essa rescisão é abusiva. O contrato deve ser mantido até o parto e o período pós-parto, independentemente do tipo de plano.

O reajuste anual pode coincidir com minha gravidez?

Sim. A gestação não impede a aplicação de reajuste contratual legítimo. Se o aniversário do contrato cai no período gestacional, a operadora pode aplicar o índice anual previsto, desde que respeite o teto da ANS (planos individuais) ou demonstre base atuarial idônea (coletivos). Quando o reajuste é abusivo, a gestante obtém tutela de urgência para redução com mais facilidade do que outros beneficiários, dada a vulnerabilidade da situação.

Posso pedir dano moral por reajuste ou cancelamento durante a gravidez?

Sim, com observações. O cancelamento ilícito durante a gestação configura dano moral indenizável pela vulnerabilidade qualificada — o TJSP fixou R$ 6.000,00 no caso paradigmático 1021349-05.2024.8.26.0001. Em situações mais graves (perda da gestação, complicações médicas, exposição a constrangimento), os valores podem chegar a R$ 15.000,00 ou mais. Em reajuste isolado sem cancelamento, a tendência é exigir prova específica de abalo (REsp 1.921.320), mas a vulnerabilidade gestacional facilita o reconhecimento.

Meu bebê tem direito automático ao plano ao nascer?

Sim. O art. 12, III, “a”, da Lei 9.656/98 garante a inscrição automática do recém-nascido como dependente nos primeiros 30 dias de vida, sem carência e sem exame prévio. A operadora deve ser notificada dentro dos 30 dias, e a partir do 31º dia a mensalidade do dependente passa a ser cobrada. Recusa de inscrição ou exigência de carência adicional para o bebê é prática abusiva passível de tutela de urgência.

Posso fazer portabilidade do plano durante a gravidez?

Pode, mas em geral não é recomendável. A portabilidade (RN 438/2018 da ANS) implica troca de rede credenciada — o que normalmente significa trocar de obstetra no meio do pré-natal. A via judicial, com pedido de tutela de urgência para manter o plano original com valor reduzido, costuma ser mais segura para a gestante. Em casos específicos — rede coberta pela operadora de destino, fim do período gestacional — a portabilidade pode ser avaliada.

Quanto tempo leva para sair a tutela de urgência?

Em São Paulo, com fundamentação no Tema 1.082/STJ, no art. 35-C da Lei 9.656/98 e na Súmula 608/STJ, a liminar que mantém o plano e suspende o reajuste abusivo costuma sair em poucos dias. A média nacional (CNJ-PNUD) em ações de saúde suplementar é de 19 dias até a decisão, com cerca de 70% de deferimento. Documentação obstétrica completa (cartão de pré-natal, ultrassonografias, laudo de gestação de risco, agendamento de cesárea) acelera o processo.

A operadora pode aplicar carência se eu trocar de plano durante a gravidez?

Depende do canal escolhido. Pela portabilidade especial da RN 438/2018, a carência já cumprida no plano de origem é aproveitada — não há nova carência para parto. Em contratação nova (sem portabilidade), a operadora pode exigir até 300 dias de carência para parto a termo (art. 12, V, Lei 9.656/98). Para urgência/emergência obstétrica, a carência máxima é de 24 horas (art. 35-C, I) — a operadora não pode invocar carência para negar atendimento de complicação gestacional que configure urgência médica.

Devo parar de pagar o plano se a operadora cancelou ou aumentou abusivamente?

Não. Pague o boleto integral até a liminar sair — qualquer atraso superior a 60 dias permite que a operadora alegue inadimplência e tente rescindir por fundamento adicional (art. 13, II, Lei 9.656/98). O que se pleiteia em juízo é a manutenção do contrato, a suspensão do percentual abusivo (em tutela de urgência) e, posteriormente, a restituição em dobro do excesso pago (CDC, art. 42, parágrafo único, com prescrição trienal — Tema 610/STJ).

A administradora (Qualicorp, Allcare etc.) responde junto com a operadora?

Sim. A Súmula 608 do STJ aplica o CDC aos contratos de plano de saúde (salvo autogestão) e o art. 7º, parágrafo único, do CDC fixa a responsabilidade solidária de toda a cadeia de consumo. No caso paradigmático do TJSP 1021349-05.2024.8.26.0001, Qualicorp e Unimed Nacional foram condenadas solidariamente. A beneficiária pode demandar a administradora, a operadora ou ambas, sem necessidade de discutir o repasse interno entre elas.

Sobre o autor

Sócio-Fundador do Belisário Maciel Advogados, escritório com atuação exclusiva em Direito Médico e da Saúde. Atua na defesa de pacientes diante de negativas de cobertura de planos de saúde, judicialização da saúde, erro médico e responsabilidade civil em saúde, com foco em casos envolvendo doenças crônicas, oncologia, neurodesenvolvimento, cirurgias e dispositivos médicos de alta complexidade.